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terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sentença



Ah, sempre me pedem para definir o Direito. Sempre caio naquela coisa prolixa, quando não piegas. Falo um pouco da minha ideologia, de ainda manter ideais, recaio sobre uma conversa sem fim; enquanto vejo gente usando tal ferramenta para fins, no mínimo, duvidosos. No entanto, a conversa do post não é muito essa. A introdução é para poder colar aqui palavras geniais e tocantes do mestre Ronald Dworkin, autor de um dos livros mais (des)consertantes do conceito de Direito, atualmente, "O império do Direito".


" O que é o Direito? Ofereço, agora, um tipo diferente de resposta. O Direito não é esgotado por nenhum catálogo de regras ou princípios, cada qual com seu próprio domínio sobre uma diferente esfera de comportamentos. Tampouco por alguma lista de autoridades com seus poderes sobre parte de nossas vidas. O império do Direito é definido pela atitude, não pelo território, o poder ou o processo. Estudamos essa atitude principalmente em tribunais de apelação, onde ela está disposta para a inspeção, mas deve ser onipresente em nossas vidas comuns se for para servir-nos bem, inclusive nos tribunais. É uma atitude interpretativa e auto-reflexiva, dirigida à política no mais amplo sentido. É uma atitude contestadora que torna todo cidadão responsável por imaginar quais são os compromissos públicos de sua sociedade com os princípios, e o que tais compromissos exigem em cada nova circunstância. O caráter contestador do Direito é confirmado, assim como é reconhecido o papel criativo das decisões privadas, pela retrospectiva da natureza judiciosa das decisões tomadas pelos tribunais, e também pelo pressuposto regulador de que, ainda que os juízes devam sempre ter a última palavra, sua palavra não será a melhor por essa razão. A atitude do Direito é construtiva: sua finalidade, no espírito interpretativo, é colocar o princípio acima da prática para mostrar o melhor caminho para um futuro melhor, mantendo a boa-fé com relação ao passado. É, por último, uma atitude fraterna, uma expressão de como somos unidos pela comunidade apesar de divididos por nossos projetos, interesses e convicções. Isto é, de qualquer forma, o que o Direito representa para nós: para as pessoas que queremos ser e para a comunidade que pretendemos ter".

E, nesse mesmo sentido, li em "O Lobo da Estepe", uma das melhores sentenças, proferida no Tribunal do Teatro Mágico, quando julgava-se um homicídio ocorrido naquela terra:

Meus senhores, em vossa presença está Harry Haller, acusado e julgado culpado de uso fraudulento de nosso teatro mágico. Harry não só ultrajou a arte sublime, confundindo nossa formosa casa de imagens com a chamada realidade, matando uma jovem ilusória com um punhal ilusório, como também demonstrou sua intenção de servir-se de nosso teatro como de uma máquina de suicídio, sem nenhum humor. Em consequência, condenamos o mencionado Sr. Haller à pena de vida eterna e à proibição por doze horas de entrar em nosso teatro. Tampouco poderemos perdoar ao condenado o castigo de lhe rirmos na cara. Senhores, todos junto: um, dois, três!
Ao três, todos os presentes prorromperam numa gargalhada unânime, uma gargalhada em coro elevado, uma gargalhada do além, dificilmente suportável pelos ouvidos humanos.

A genialidade da sentença vem justamente nisso: a vida eterna, o rir na cara. A proibição ao teatro mágico de todo dia, a proibição ao humor. Vai ver está faltando o riso 'na cara", o escracho, a crítica construtiva com humor. A inteligência confrontar a mesmice!

Seguindo o ensinamento, talvez a vida mostre mesmo aos donos e donas da verdade que a figura que hoje passou por um espantalho medonho e acabou por fazê-lo perder o jogo da vida, do cotidiano, poderá converter-se amanhã numa pobre figura secundária. E uma outra pobre figurinha, que parecia ainda há pouco viver sob a influência de uma estrela má, poderá converter-se no próximo jogo em uma princesa (princípe, para a leitora).

Enfim, desejo sempre muitas satisfações. E se for preciso, MUITAS RISADAS NA CARA!

"Quando a sentença se anuncia bruta,
a mão pesada logo executa.
Senão, o coração perdoa". (Chico Buarque)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Palavreado

“Pegadinha do Malandro”. Foi a primeira coisa que veio na minha mente ao ler essa noticia na Folha de São Paulo essa semana.

Depois do vestibular para Direito, as palavras jurídicas têm estado muito mais presentes no meu dia-a-dia. Na verdade, acho que a minha percepção para elas é que aumentou (e muito, diga-se de passagem), e, portanto, qualquer hora que vejo a palavra “juiz” ou “processo” ou outras deste campo, eu paro para ver de que se trata. Pois bem. Eis que no referido jornal, eu leio o título: “Juiz chama "BBBs" de "gostosas" em sentença”. Tive que parar para ler... E olha com o que me deparei:

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03/02/2009 - 09h13
Juiz chama "BBBs" de "gostosas" em sentença
da Folha de S.Paulo, no Rio

Assistir às "gostosas" do "Big Brother Brasil" foi uma das justificativas de um juiz do Rio para dar ganho de causa a um homem que ficou meses sem poder ver televisão. O juiz Cláudio Ferreira Rodrigues, 39, titular da Vara Cível de Campos dos Goytacazes (278 km do Rio), justificou sua sentença dizendo que procura "ser sempre o mais informal possível".

Ao determinar o pagamento de indenização de R$ 6.000 por defeito em um aparelho de TV, o juiz afirmou na sentença: "Na vida moderna, não há como negar que um aparelho televisor, presente na quase totalidade dos lares, é considerado bem essencial. Sem ele, como o autor poderia assistir às gostosas do "Big Brother'?".

O magistrado disse que procura ser direto para que o autor da ação entenda por que ganhou ou perdeu. Para ele, quem reclama na Justiça é quem mais deve ser respeitado, porque "é o cara que paga o tributo". "Não adianta ficar falando só o que os advogados sabem sem chegar à cognição do juridicionado. Fiz aquela folha de brincadeira para deixar informal."

Ele argumenta que a expressão foi usada para fundamentar o autor da ação, um senhor que contou ter ficado por seis meses sem assistir ao "BBB", ao "Jornal Nacional" e a jogos de futebol, por um defeito da TV. O juiz diz que não se arrepende.

"[As garotas que participam do "BBB'] Não são escolhidas pelo padrão de beleza? 90% das mulheres que vão para lá são bonitas realmente. Talvez eu tenha pecado pela linguagem. Poderia ter falado: "Deixando de observar as meninas com um padrão físico'", ironizou.

Na sentença, ele ainda faz piada com dois times cariocas. Assim como o autor da ação, que contou ser flamenguista, ele brinca com a situação do Fluminense e do Vasco, que foi rebaixado no ano passado. "Se o autor fosse torcedor do Fluminense ou do Vasco, não haveria a necessidade de haver TV, já que para sofrer não se precisa de TV", diz, na sentença.

"Eu sou flamenguista, mas todo mundo sabe disso. Tem um outro processo em que eu sacaneio o meu próprio time. E não provocou nenhuma celeuma. Eu podia ser criticado se eu fosse moroso demais. Estou fazendo o que meu antecessor não fez."

MALU TOLEDO, da Folha de S.Paulo

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Depois disso, comecei a pensar o que se passava na cabeça do cidadão, porque a justificativa acima não me foi aceita, mas nada me veio esclarecendo. Uma das coisas que mais me impressionam no Direito é justamente a linguagem, e pretendo aprendê-la bem na universidade, pois não há (no meu ver) nada mais belo que uma sentença jurídica. É lindo! Tão prazeroso quanto um poema. E então, vejo toda essa aparência ser decaída neste caso acima narrado. Fiquei pasma, mas não farei comentários.

Apenas espero, por motivos de apreciação pessoal, que “a moda não pegue”.

Thais Barbosa

p.s.: Sei que a reforma ortográfica está em vigor, mas eu aprendi que se acentuam as paroxítonas terminadas em “UM LINURXÃ OS DITONGO” e todas as proparoxítonas. Aprendi que o trema existe e que tem uso, e que os acentos diferenciais têm motivo de existir. Enquanto não me for obrigado, escreverei como eu sei. Desculpas se alguém for contrário a minha opinião, mas não me agrada a idéia de novas regras nas minhas tão merecidas férias...

p.p.s.: Não entrei no mérito de discutir o time que o Juiz se refere, para não levantar outras discussões alheias ao meu propósito.